Ulises Guzmán apresenta um premiado e fantástico documentário

O realizador mexicano investiga uma história real em seu novo filme l Foto: Divulgação

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O realizador mexicano Ulises Guzmán estreou em salas do seu país seu mais recente longa-metragem. Alucardos, Retrato de um Vampiro é um documentário fantástico que indaga sobre o que há na mente de um artista de terror e seus fãs, através da história de Manolo e Lalo, dois aficionados do filme de horror Alucarda, de Juan López Moctezuma.

Segundo o diretor, este filme “não é outra coisa que o relato de um encontro entre seres marginais e a redenção que encontram juntos. É uma história real, autêntica, da vida diária, mas que excede por muito o mais fantástico que já relatei”, garantiu em entrevista concedida há quase três anos para o ALDEA CULTURAL (em espanhol).

É o próprio Guzmán que descreve o longa, oferecendo uma sinopse: “São dois admiradores do filme de culto de Juan López Moctezuma, Alucarda; um deles quer se transformar nesse personagem. Durante um tempo buscam o filme por todo lugar. Não o encontram nos mercados de rua, onde se encontra de tudo… Mais tarde buscam aos atores e atrizes que participaram da produção, entre eles Tina Romero. Acham Moctezuma em um hospital psiquiátrico e o ‘roubam’ para curá-lo”.

De acordo com o cineasta, realizador de produções como Malapata e Virgem de Meia-noite, o tratamento levado a cabo pelos dois aficionados consistiu em levar Moctezuma às locações de seus filmes. O diretor então saiu de sua letargia e recuperou a lucidez depois de três dias se submetendo ao processo. Tornou-se amigo de seus dois fãs e um ano depois morreu, deixando-lhes de guardiães de sua obra e a herança de algumas imagens inéditas. “Como se pode ver, até no documentário o fantástico me persegue”, observa Guzmán.

Recorrendo a entrevistas, imagens de arquivo e reconstruções, o documentário, escrito e produzido por Guzmán e Edna Campos e cuja duração é de 90 minutos, conta com atuações de Juan Carlos Colombo, Luis Romano, Óscar Olivares, Mikel Mateos, David Castillo, Christina Mason e Claudia Figueroa, além de depoimentos de Manuel Durán, Eduardo Mondragón, Carlos Monsiváis, Tina Romero, Eduardo Moreno, Alessandra Moctezuma e Liliana Ortiz Durán. Sua lista de reconhecimentos inclui prêmios em diferentes festivais do México, Colômbia, Brasil e Uruguai.

A capa da Época, Michel Teló, a cultura popular e o vexame editorial

O texto infeliz da revista causou indignação na Internet l Foto: clique para ampliar

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A capa da primeira revista Época deste ano é o assunto do momento. Michel Teló, o cantor do hit instantâneo “Ai, se eu te pego”, é o protagonista da mesma, o que gerou uma onda enorme de comentários revoltados em blogs e redes como o Facebook e o Twitter, nas quais os leitores criticaram a publicação e o texto usado para anunciar a matéria.

O texto que acompanha a foto – que por sinal é pouco favorável ao ‘intérprete’ e tem uma composição visual de mau gosto – diz: “Com o sucesso de ‘Ai, se eu te pego’, o cantor paranaense Michel Teló traduz os valores da cultura popular para os brasileiros de todas as classes”. Há ainda o título, que sentencia: “Ele ainda vai te pegar” (talvez tenha pegado os editores da revista; a mim, com certeza, não).

Além do próprio fato de uma das revistas mais importantes do Brasil ocupar sua capa com um cantor cuja música é de gosto extremamente duvidoso, gerou indignação o trecho que diz “traduz os valores da cultura popular”. O blog Literatortura apresenta um ótimo post a respeito, que coincide com boa parte do que penso, ainda que me permita algumas observações e reflexões adicionais ao tema.

Em primeiro lugar, acredito que a Época pode colocar na capa quem ela bem entender. E do ponto de vista editorial, é altamente compreensível e legítima a escolha de Teló como protagonista da edição. Afinal, queira-se ou não, sua canção é um fenômeno comercial que já ultrapassou inclusive as fronteiras do país. Que sua musiquinha seja de uma pobreza de dar dó, é outra história. Mas o sujeito é notícia? Sim, sem dúvida. Então, a capa é válida.

No entanto, o que é execrável é justamente a parte que se refere a cultura popular. Faça-se um esforço para ler a paupérrima letra: “Nossa, nossa / Assim você me mata / Ai, se eu te pego, ai, ai, se eu te pego / Delícia, delícia / Assim você me mata / Ai, se eu te pego, ai, ai, se eu te pego / Sábado na balada / A galera começou a dançar / E passou a menina mais linda / Tomei coragem e comecei a falar”. Gostaria muito de saber quais os valores que a Época identifica nesses versos que possam traduzir uma cultura tão rica como a brasileira. É, no mínimo, um insulto. E dos grandes.

Por outra parte, as pessoas deveriam levar a música menos a sério. Canções não são feitas para mudar a vida de ninguém e o propósito de simplesmente fazer dançar é válido, por que não? Por que muitas vezes cobramos da música o que não cobramos, por exemplo, do cinema, no qual nos acostumamos a pagar ingresso para ver bobagens como Rápidos e Furiosos e As Panteras Detonando? É, no mínimo, incoerente.

Não quero defender a pegajosa canção de Michel Teló, e muito menos a este. Se sua música faz tanto sucesso, dentro e fora do Brasil, é porque algum mérito deve ter. Ainda que seja apenas esse: ser pegajosa. Se for só para dançar, ótimo (dança quem quer, ainda que infelizmente todos sejamos obrigados a ouvir). Mas se for para que uma revista conceituada como a Época afirme que a mesma traduz os valores da cultura popular brasileira, então estamos realmente mal. E não só do ponto de vista musical, mas sobretudo editorial. Deprimente.

Matheus Nachtergaele, um talento nato e visceral do cinema brasileiro

O ator tem tido uma presença constante em filmes brasileiros l Foto: Reprodução

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Nascido em 3 de janeiro de 1969 na cidade de São Paulo, o ator e diretor Matheus Nachtergaele despontou como um dos maiores talentos do Brasil ao atuar no espetáculos O Paraíso Perdido e O Livro de Jó, do Teatro da Vertigem, mas foi no cinema que o intérprete do Isaías de Central do Brasil e do Cenoura de Cidade de Deus tornou-se um dos rostos mais conhecidos do universo artístico brasileiro.

Filho do belga Jean-Pierre Nachtergaele, um dos fundadores da Traditional Jazz Band, Matheus passou pelo Centro de Pesquisa Teatral (CPT), de Antunes Filho, e estudou na Escola de Arte Dramática da Universidade de São Paulo (USP), antes de entrar no Teatro da Vertigem. Foi lá que, sob direção de Antonio Araújo, o ator começou a receber os primeiros reconhecimentos da carreira.

A estreia em longas-metragens ocorreu com os filmes O Que é Isso, Companheiro, de Bruno Barreto, e Anahy de las Misiones, de Sérgio Silva, ambos lançados em 1997. O primeiro deles foi finalista do Oscar na categoria de Melhor Filme Estrangeiro, assim como Central do Brasil (de Walter Salles, 1998), no qual interpretou o irmão maior de Josué, o jovem protagonista do longa.

Em O Auto da Compadecida, Nachtergaele demonstrou um notável talento para a comédia; já em Cidade de Deus, deu vida a um traficante de drogas da favela carioca. Mas foi em Amarelo Manga e Baixio das Bestas, de Cláudio Assis, e em A Concepção, de José Eduardo Belmonte, que o ator provou sua versatilidade e capacidade de atuar em projetos arriscados e com um selo mais pessoal.

Sua estreia como diretor em A Festa da Menina Morta mostra um artista inquieto e cheio de vitalidade, que ainda deve presentear o público com grandes papéis nas telas e interessantes trabalhos atrás das câmeras.

Claudia Rojas: “Ser atriz em Cuba é representar um povo inteiro”

A atriz protagonizou filmes aos dois lados do oceano l Fotograma: La Novia de Lázaro

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O cinema cubano sempre foi pródigo em apresentar grandes atores para as telas. No final dos anos 90, foi a vez de que Fernando Pérez revelasse o talento de Claudia Rojas, em La Vida es Silbar, como a bailarina ninfômana que prometeu a Deus não ir para a cama com nenhum homem se conseguisse o papel principal em um espetáculo de balé.

Mais de uma década se passou da estreia cinematográfica que rendeu a atriz um Coral no Festival de Havana. Nesse período, sua carreira tem transitado pelo teatro, pela televisão e, naturalmente, pelo trabalho para o cinema, que a levou inclusive a migrar para a Espanha, país onde morou durante anos.

Na península, protagonizou dois longas importantes em sua carreira. No primeiro, La Novia de Lázaro, mergulhou em um relato duro e desesperado, para o qual se entregou de corpo e alma. Em 90 Millas, retratou o drama de milhares de compatriotas que arriscam a vida ao tentar escapar a Miami em pequenas embarcações lançadas ao mar.

Morando atualmente em Havana, onde desenvolve diversos projetos artísticos, a atriz conversou com o ALDEIA CULTURAL para fazer um balanço da sua carreira e falar de suas experiências aos dois lados do oceano, da beleza e magia existentes em seu Caribe natal e de outras facetas menos conhecidas, como a de escritora e roteirista.

Entrevista
Claudia Rojas l Atriz e escritora cubana

“São poucos nesta cidade os que tratam de esconder suas emoções, aqui se chora, se ri, se goza”.

“A noiva de Lázaro sou eu. Atuei naturalmente, era o que estava me acontecendo. Era uma imigrante em Madri sobrevivendo”.

“90 Milhas é um dos conflitos mais importantes da sociedade cubana. Teria gostado de fazê-la em Cuba e não em Tenerife”.

ALDEIA CULTURAL (AC). Sua estreia em um longa-metragem ocurreu com La Vida es Silbar (A Vida é Assobiar), um dos filmes cubanos mais importantes dos anos 90 e pelo qual você inclusive foi premiada. Que lembrança você guarda das filmagens?
CLAUDIA ROJAS (CR). Os olhos de Fernando Pérez. Houve um exercício importante no casting; Fernando colocou duas cadeiras, uma em frente da outra, nós nos sentamos e ele me disse que eu traduzisse com minhas emoções o que expressava seu olhar. Você não imagina, Sergio, tudo o que encontrei na alma de Fernando Pérez. Atualmente dou oficinas de atuação para cinema, este é um dos exercícios que me permitem conhecer o ator e que permite ao ator me conhecer. Sou uma pessoa muito afortunada que teve grandes mestres.

La Vida es Silbar

AC. Conte-me sobre sua infância e seus primeiros desejos de ser atriz. Quando e como você decidiu que se dedicaria a atuação?
CR. Aos cinco anos parei diante da L y 19, a escola cubana de balé, criada pela magnífica Alicia Alonso, com minha mãe ao lado e lhe disse: ‘Mãe, bailarina ou varredora de rua’. A partir desse momento toda a minha vida tem girado em torno a arte. Meu mestre René Pereyra foi a primeira pessoa que me disse: ‘A câmera te quer’. Comecei em sua escola em 94, me encontrava vivendo no Distrito Federal, no México. O primeiro mês foi terrível porque o método de Lee Strasberg está baseado no auto-conhecimento através do relaxamento, que pode ser até de quatro horas, passando por todo o corpo. Eu me encontrei com todos os meus fantasmas, com minhas fraquezas, alegrias. É complicado domar-se a si mesmo para conseguir que essas emoções saiam através de um personagem. Cada dia me convenço de que o caminho que escolhi para me expressar é lindo. Os atores somos, como me disse uma vez (o diretor) Fernando Merinero, a alma do filme, e que gostoso é ser alma neste mundo.

AC. Como é ser ator em Cuba? É mais fácil, mais complicado ou tão difícil quanto em outros países?
CR.Cada lugar tem suas características e a pessoa, em cada lugar, está de um modo diferente. No Distrito Federal, que foi onde comecei, há um sistema muito bom porque existem muitas casas de casting onde aceitam a todos os atores e suas fotos, os situam de acordo a idade nos arquivos. Quando há um casting de uma mulher de 20 a 30 anos avisam a todas as mulheres que constam no arquivo. Os castings são multitudinários, 300 atores, mas abrem a possibilidade de encontrar trabalho e além disso são um treinamento impressionante porque em muitos dos castings te dão un texto, que você tem que aprender enquanto está na fila, para interpretá-lo diante da câmera, com quatro emoções diferentes. Eu tive a sorte de encontrar Claudia Becker e Rogelio Rojas, diretores de casting, que praticamente me adotaram, eles me treinaram para fazer casting. Na Espanha é mais complicado porque as casas de casting, que não são muitas, te pedem, se você quiser que te chamem, as fotos que elas mesmas fazem, cobram desde 40 euros a 70, e pode ocorrer, como me aconteceu com várias destas casas, que nunca voltem a te chamar. Retornei a Cuba há cinco anos, que eu saiba há duas ou três casas de casting que eu não frequento muito. Ser ator, no meu ponto de vista, é

La Vida es Silbar

como ser pintor, músico. É inevitável. Eu faço trabalhos independentes, há muitos anos, La Novia de Lázaro (A Noiva de Lázaro) é prova disso. Aqui em Cuba já fiz um documentário como realizadora com duas amigas, uma produtora, Tatiana Canro, e a outra, fotógrafa, Liliete Reyes. Tenho oito monólogos feitos em vídeo com diferentes artistas jovens que têm sua câmera, nós editamos. É maravilhoso porque este Caribe é criação, é sol, é alegria, tristeza. Aqui as emoções andam pelas ruas dançando com o mar. Ser atriz em Cuba, sendo cubana, me abre a possibilidade de representar um povo inteiro, lindo, seres humanos que ainda não estão viciados de capitalismo.

AC. Cuba é um país que sofreu muito por questões que todos conhecemos, mas ao mesmo tempo percebe-se em seus filmes uma magia, uma enorme capacidade para mostrar personagens carismáticos e uma grande paixão pela vida, apesar dos problemas. A que você atribui essa característica tão marcante do cinema cubano?
CR. Imagina, Sergio, que pela manhã, quando eu me levanto, meu corpo está a temperatura ambiente, o ar é limpo, cheio de mar. Quando me encontro com alguém fora do meu prédio, me cumprimenta e eu o cumprimento. Na rua os homens dizem todos os tipos de elogio, desde o mais feio ou bonito, até o mais estranho. Nas filas se fazem amigos. Sempre está o verde das plantas, o vermelho, rosa, amarelo, branco das flores. Quando vou ao mercado para comprar frutas e verduras sujo minhas mãos de terra em plena Cidade de La Habana. As crianças andam brincando, a partir das cinco da tarde, nas ruas. Os cubanos, homens e mulheres, quando olham te penetram os olhos, e se nesse momento sorriem, te cativam. São poucos nesta cidade os que tratam de esconder suas emoções, aqui se chora, se ri, se goza. A nudez desta ilha é imensa, com muitos matizes, essencial para a criação dos artistas. De que outra maneira poderia se refletir esta ilha se fosse como em Memorias del Subdesarrollo (Memórias do Subdesenvolvimento), Muerte de un Burócrata (Morte de um Burocrata), Fresa y Chocolate (Morango e Chocolate), Se Permuta (Permuta-se), Lucía, Clandestinos, La Vida es Silbar ou Suite Habana. Não se pode pedir peras ao olmo, mas para a pereira sim.

90 Millas

AC. Outro filme em que você atuou foi 90 Millas (90 Milhas), que transcorre quase totalmente sobre uma embarcação no mar. Como se fez para rodar uma produção assim e quais foram suas maiores dificuldades no processo?
CR. 90 Millas é um dos conflitos mais importantes da sociedade cubana. Estudei esse personagem me enfocando na mãe terra. Foi muito difícil. É uma produção espanhola, equipe técnica espanhola, que não sentia a importância de fazer um filme com este tema. Teria gostado de fazê-lo em Cuba e não em Tenerife. O melhor de tudo foi que convivi com atores estelares como Enrique Molina, Daisy Granados, Alexis Valdés, Miliki (Emilio Aragón), Jorge Herrera, atores que chegavam ao primeiro dia de ensaio com o texto aprendido, dispostos a dar tudo. Nós ficávamos, às vezes, até quatro horas dentro da balsa, no meio do mar, enquanto enquadravam o próximo plano, fazendo contos impressionantes, cantando. Eu fui com minha filha porque não tinha quem a cuidasse e Daisy foi com o já falecido Pastor Vega, ele cuidou da minha menina em muitas ocasiões, saíam para passear, Camila chegava eufórica pelos contos desse grande do nosso cinema cubano, feliz da mão de Pastor. Há um caso terrível; os primeiros 10 dias filmamos de noite, uma dessas noites tinha que filmar a parte em que vou de um lado a outro da balsa com o bebê nos braços, que é quando Jorge e Alexis brigam, o diretor me diz que pegue o bebê, mas estávamos na beirada, as ondas batiam na balsa com muita força e eu tinha que ir até o lado da balsa onde as ondas quebravam, e eu disse ao diretor que não me responsabilizava pela vida da criança, que preferia fazê-lo com a boneca, foi assim que a contragosto me tiraram a menina dos braços e me deram o boneco; ai, Sergio, o diretor disse ‘ação’, começou a briga, eu fui para trás, uma onda bateu na balsa e eu caí, com minha bonequinha de plástico, ao mar. A mãe do bebê ficou petrificada, praticamente.

AC. Na Espanha, você protagonizou La Novia de Lázaro, um filme complexo e bastante visceral. Como você assumiu esse desafio e como foi sua preparação para um papel que requeria tanta entrega física e emocional?
CR. A noiva de Lázaro sou eu. Atuei naturalmente. Era o que estava acontecendo comigo. Era uma imigrante em Madri sobrevivendo quando me encontrei com um magnífico homem e diretor, com quem fui morar, por volta de dois ou três meses, para conseguir fazer este filme. Sou muito afortunada. Fernando (Merinero, diretor do longa) é um grande fotógrafo que entra dentro do ator com sua câmera, é um diretor amável, amoroso e paciente. A primeira cena que se filmou foi quando vou para a casa do pai das duas meninas, que na realidade são as sobrinhas de Fernando Merinero, e aquele é o irmão do Fernando. Nesse momento não havia noiva de Lázaro, ainda. Filmávamos improvisações e dependendo do que acontecia se planificava o que continuava. Tínhamos pautas que queríamos seguir, como por exemplo a história da prisão, que foi idea do Fernando. Houve um momento em que meu personagem precisva relaxar e nos ajudou Ramón Merlo, que é um excelente amigo dos dois e um maravilhoso ator de comédia. A partir de La Novia de Lázaro minha concepção cinematográfica mudou. Como eu te disse antes, tive grandes mestres.

La Novia de Lázaro

AC. Vamos deixar um pouco de lado o assunto da atuação no cinema. Fale-me de sua experiência no palco. Sei que você atuou bastante no México, também em Cuba. Que personagens você lembra com mais carinho?
CR. No fórum Atores do Método, no México, nosso mestre nos permitia fazer sessões com público todas as quintas-feiras. O primeiro nu que fiz foi terrível. Em Ojos de Perro Azul (Olhos de Cão Azul), de Gabriel García Márquez, eu falava de amor para o outro personagem, nua, e o diretor queria, além disso, que expressasse com movimentos o amor mesmo de que eu estava falando… aiiii… Era um velador alto, na altura dos meus quadris, se supunha que era só o velador; e o diretor, sem me dizer, mandou acender uma luz zenital que cada noite era mais intensa, até que terminei por me liberar e aceitar minha nudez. Em Cuba fiz Réquiem por Yarini, dirigida por Gerardo Fulleda León, meu companheiro era Felito Lahera. O personagem era la Santiaguera, a prostituta pela qual matam a Yarini, a obra é de Carlos Felipe. Foi uma experiência mágica, celestial, um reencontro com La Habana e a harmonia que me habita.

AC. Você tem também outra faceta, a de escritora e roteirista. Conte mais sobre seu interesse em narrar histórias; e ainda sobre essa pergunta, te atrai a ideia de dirigir um filme?
CR. Comecei a escrever porque falava sozinha e um dia me disse ‘Vou escrever isto’. Grande descoberta. A partir daí escrevia minhas cinco e oito horinhas e até mais, como obcecada. Escrevia tudo o que me acontecia, desde uma mulher em greve perene em Madri até o que me provocava o som do bastão de um cego. Tudo eram histórias para contar, adolescentes no ônibus, um buraco na parede do meu quarto que dava para a casa dos vizinhos, um anel que toca tudo, um Juan Salvador Gaviota com drelos e sem cama. Leia nos bares e centros alternativos meus contos para ganhar algum dinheiro. Eu me divertia muito. Foi quando estudei roteiro com o argentino Pedro Loeb, no Conde Duque, centro cultural, maravilhoso, que existe em Madri. Logo consegui um programa na (emissora de TV) Telemadrid que eu escrevia, se chamava “Yo Claudia” (Eu Claudia) e era um monólogo para a câmera com dois contos didáticos representados por máscara de papel machê, as fazia eu, teria preferido fazer os contos com atores mas não havia orçamento. Minha avó materna, Gloria Parrado Cruz, era escritora e investigadora, iniciou a dramaturgia em Cuba, tem vários livros de teatro publicados sobre a investigação teatral e peças de teatro escritas que foram montadas nos palcos de Cuba e do mundo. Eu dormia com minha avó, com seus livros, com sua obsessão. Tinha um grupo de teatro de jovens, faziam teatro experimental, atuavam em solares e parques, para a cidade inteira. Minha mãe, Aries Morales Parrado, é filóloga, poeta, diretora de teatro, editora, enfim, estou rodeada. Sapateiro a seu sapato. Dirigir um longa-metragem seria o próprio nirvana.

AC. Em que projetos você tem estado envolvida atualmente e o que vem para o futuro a curto prazo?
CR. Acabo de terminar de editar o documentário do qual te falei antes. Faz três anos que estou escrevendo um roteiro, que acabo de terminar, estamos buscando entrar na pré-produção, é um lindo roteiro. Tenho um monólogo para teatro com poesia de Nicolás Guillén e imagens de quase todos os meus trabalhos. Adoraria apresentar em festivais meu último monólogo filmado em vídeo, que se chama Loca (Louca).

Novo filme de Beto Brant tem Camila Pitanga em triângulo amoroso

Camila Pitanga protagoniza história ambientada na Amazônia l Foto: Divulgação

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O mais recente filme dos diretores Beto Brant e Renato Ciasca, Eu Receberia as Piores Notícias dos Seus Lindos Lábios, apresenta uma trama sobre um triângulo amoroso entre uma ex-garota de programa, um pastor e um fotógrafo. Camila Pitanga interpreta o principal personagem feminino do longa, que vem sendo recebido com ótimas críticas e já ganhou prêmios nos festivais onde tem sido exibido, antes de sua estreia comercial, em 9 de março de 2012.

A produção foi rodada em 2010 e já rendeu os prêmios de melhor atriz para Pitanga nos festivais do Rio e do Amazonas, e de melhor ator para Zecarlos Machado neste último evento, realizado há duas semanas. Esta não é a primeira vez que Brant e Ciasca dividem os créditos pela direção de um filme, já que em 2007 ambos lançaram Cão Sem Dono, embora sua parceria seja muito mais antiga.

O roteiro do sétimo longa-metragem de Brant é baseado na obra homônima de Marçal Aquino e apresenta a ex-prostituta Lavínia (Pitanga), que foi tirada das ruas pelo pastor Ernani (Zecarlos), com quem passou a viver. Quando o casal se muda para outra cidade, Lavínia se envolve com Cauby (Gustavo Machado), um fotógrafo totalmente apaixonado por ela. O filme conta ainda com a atuação de Gero Camilo, no papel do jornalista Viktor Lawrence.

A situação dos três personagens principais rende muitas cenas de nudez e sexo, nas quais os protagonistas são quase bichos, em meio a um relato mostrado de forma vibrante e ‘crua’, bem ao estilo de Brant, diretor de Os Matadores (seu primeiro longa, rodado na fronteira com o Paraguai) e O Invasor (seu maior sucesso comercial até agora). A entrega total dos atores foi fundamental para conferir ao filme a intensidade e cariz visceral que se vêem na tela.

Rodado nas cidades paraenses de Santarém e Itaituba, na comunidade de São Pedro, às margens do Rio Arapiuns, no mesmo estado, e no Rio de Janeiro, com uma equipe de 50 pessoas, Eu Receberia as Piores Notícias dos Seus Lindos Lábios foi orçado em 4,3 milhões de reais, embora tenha sido realizado com apenas 3,5. Os diretores optaram pelo uso de steadicam e extensos planos-sequência e por não fazer muitas tomadas da mesma cena, com o intuito de transmitir para a tela as primeiras emoções dos atores, em sua jornada de urgência e descobrimento.

Satyrianas se iniciam com novidades e maratona de espetáculos teatrais

Ivam Cabral e Cléo de Páris atuam na peça Cabaret Stravaganza l Foto: Divulgação

 

Começou na noite desta sexta-feira em São Paulo a 12ª edição das Satyrianas, uma maratona de 78 horas ininterruptas de espetáculos de teatro e dança, leituras dramáticas, shows musicais, performances e exposições fotográficas, que têm lugar em 27 espaços diferentes da capital paulista.

Organizado e promovido pela Companhia Os Satyros, uma das mais importantes e tradicionais da cidade, o evento teve início às 18:00 de ontem (dia 11) e se prolongará até a meia-noite da segunda-feira (14). Uma das características das Satyrianas é que cada espectador escolhe quanto quer pagar, ao final de cada espetáculo, com um valor mínimo de R$ 2,00.

Este ano, são homenageados os desbravadores da Praça Roosevelt, os artistas Lavínia Pannunzio, Bosco Brasil, Jairo Mattos, Ariela Goldmann e Luis Frugoli. Outras novidades são a Satyrianinhas, uma programação especial para as crianças, as sessões de stand up, e o Passeio de Bicicletas, que percorrerá os teatros da região central paulistana.

Também estreando em 2011, o projeto AutoPeças propõe uma encenação inusitada e diferente: dentro de cerca de 10 carros em movimento são interpretadas pequenas cenas de autores convidados, como Ivam Cabral, Germano Pereira e Hayaldo Copque. Inclui-se ainda trechos da peça Autobahn, representada por Eduardo Guimarães, Fábio Rodhen, Fernanda D’Umbra e outros atores.

Por outro lado, o já tradicional projeto DramaMix reúne 30 dramaturgos – entre eles Célia Regina Forte, Flávio Goldman, Hugo Possolo, Gabriela Mellão, Marici Salomão e Sérgio Roveri –, que assinam textos exclusivos para o evento, interpretados por atores como Gustavo Machado, Iara Jamra, Leopoldo Pacheco, Mel Lisboa, Rosana Stavis e Tania Bondezan.

Idealizadas por Ivam Cabral e Rodolfo García Vázquez, co-fundadores dos Satyros e que são responsáveis também pela curadoria, as Satyrianas têm produção geral de Robson Catalunha e produção executiva de David Tostes. É possível conferir a programação completa no site do evento.

Fernando Henrique Cardoso discute questão das drogas em documentário

Ex-presidente brasileiro entrevista personalidades como Drauzio Varella l Foto: Reprodução

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O diretor Fernando Grostein Andrade e o ex-presidente da República Fernando Henrique Cardoso participarão nesta quarta-feira, dia 9, de uma sessão de autógrafos e um bate-papo em razão do lançamento do DVD do documentário Quebrando o Tabu (assistir o trailer), que discute a questão das drogas no mundo. O evento acontecerá às 19:00, na livraria Saraiva, no shopping Higienópolis, em São Paulo.

Realizado pela Spray Filmes e produzido por Fernando Menocci, Silvana Tinelli e Luciano Huck (irmão do diretor), o documentário conta com depoimentos dos ex-chefes de Estado Bill Clinton e Jimmy Carter, do ator Gael García Bernal, do médico Drauzio Varella e do escritor Paulo Coelho, entre outros, e foi lançado nos cinemas em junho deste ano. Durante dois anos, Cardoso percorreu países como Estados Unidos, Holanda, Suíça, Portugal e México, em busca de opiniões e experiências no combate ao tráfico; é ele quem atua como âncora do longa.

O ex-presidente defende a descriminalização das drogas, além de considerar a guerra contra elas totalmente perdida. “Só quem é burro não muda de opinião diante de fatos novos. Eu não tinha consciência da gravidade e do que significava essa questão naquela época como tenho hoje”, avalia, quando perguntado por que não fez algo a respeito quando ocupava o principal cargo do país.

Para Cardoso, que considera que o usuário deveria ter a possibilidade de encontrar drogas sem recorrer a um traficante, pensar em um mundo livre destas substâncias “é uma coisa utópica, não houve até hoje na história”. O autor do livro 15 To Life,  Anthony Papa, também segue o mesmo raciocínio. “Se não conseguimos acabar com as drogas dentro de uma prisão de segurança máxima, como acabaremos com elas em uma sociedade livre?”, pergunta.

O filme, que dura 74 minutos, tem também depoimentos de Ruth Dreifuss (ex-presidente suíça), Ethan Nadelmann (diretor do Drug Policy Alliance), Gregory Lannes (executivo da indústria de telecomunicações), Moisés Naím (especialista em redes criminais globais) e Gro Brundtland (ex-primeira ministra da Noruega e diretora geral da Organização Mundial da Saúde), além de usuários de drogas. No total, foram entrevistadas 176 pessoas.