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Matheus Nachtergaele, um talento nato e visceral do cinema brasileiro

O ator tem tido uma presença constante em filmes brasileiros l Foto: Reprodução

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Nascido em 3 de janeiro de 1969 na cidade de São Paulo, o ator e diretor Matheus Nachtergaele despontou como um dos maiores talentos do Brasil ao atuar no espetáculos O Paraíso Perdido e O Livro de Jó, do Teatro da Vertigem, mas foi no cinema que o intérprete do Isaías de Central do Brasil e do Cenoura de Cidade de Deus tornou-se um dos rostos mais conhecidos do universo artístico brasileiro.

Filho do belga Jean-Pierre Nachtergaele, um dos fundadores da Traditional Jazz Band, Matheus passou pelo Centro de Pesquisa Teatral (CPT), de Antunes Filho, e estudou na Escola de Arte Dramática da Universidade de São Paulo (USP), antes de entrar no Teatro da Vertigem. Foi lá que, sob direção de Antonio Araújo, o ator começou a receber os primeiros reconhecimentos da carreira.

A estreia em longas-metragens ocorreu com os filmes O Que é Isso, Companheiro, de Bruno Barreto, e Anahy de las Misiones, de Sérgio Silva, ambos lançados em 1997. O primeiro deles foi finalista do Oscar na categoria de Melhor Filme Estrangeiro, assim como Central do Brasil (de Walter Salles, 1998), no qual interpretou o irmão maior de Josué, o jovem protagonista do longa.

Em O Auto da Compadecida, Nachtergaele demonstrou um notável talento para a comédia; já em Cidade de Deus, deu vida a um traficante de drogas da favela carioca. Mas foi em Amarelo Manga e Baixio das Bestas, de Cláudio Assis, e em A Concepção, de José Eduardo Belmonte, que o ator provou sua versatilidade e capacidade de atuar em projetos arriscados e com um selo mais pessoal.

Sua estreia como diretor em A Festa da Menina Morta mostra um artista inquieto e cheio de vitalidade, que ainda deve presentear o público com grandes papéis nas telas e interessantes trabalhos atrás das câmeras.

Novo filme de Beto Brant tem Camila Pitanga em triângulo amoroso

Camila Pitanga protagoniza história ambientada na Amazônia l Foto: Divulgação

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O mais recente filme dos diretores Beto Brant e Renato Ciasca, Eu Receberia as Piores Notícias dos Seus Lindos Lábios, apresenta uma trama sobre um triângulo amoroso entre uma ex-garota de programa, um pastor e um fotógrafo. Camila Pitanga interpreta o principal personagem feminino do longa, que vem sendo recebido com ótimas críticas e já ganhou prêmios nos festivais onde tem sido exibido, antes de sua estreia comercial, em 9 de março de 2012.

A produção foi rodada em 2010 e já rendeu os prêmios de melhor atriz para Pitanga nos festivais do Rio e do Amazonas, e de melhor ator para Zecarlos Machado neste último evento, realizado há duas semanas. Esta não é a primeira vez que Brant e Ciasca dividem os créditos pela direção de um filme, já que em 2007 ambos lançaram Cão Sem Dono, embora sua parceria seja muito mais antiga.

O roteiro do sétimo longa-metragem de Brant é baseado na obra homônima de Marçal Aquino e apresenta a ex-prostituta Lavínia (Pitanga), que foi tirada das ruas pelo pastor Ernani (Zecarlos), com quem passou a viver. Quando o casal se muda para outra cidade, Lavínia se envolve com Cauby (Gustavo Machado), um fotógrafo totalmente apaixonado por ela. O filme conta ainda com a atuação de Gero Camilo, no papel do jornalista Viktor Lawrence.

A situação dos três personagens principais rende muitas cenas de nudez e sexo, nas quais os protagonistas são quase bichos, em meio a um relato mostrado de forma vibrante e ‘crua’, bem ao estilo de Brant, diretor de Os Matadores (seu primeiro longa, rodado na fronteira com o Paraguai) e O Invasor (seu maior sucesso comercial até agora). A entrega total dos atores foi fundamental para conferir ao filme a intensidade e cariz visceral que se vêem na tela.

Rodado nas cidades paraenses de Santarém e Itaituba, na comunidade de São Pedro, às margens do Rio Arapiuns, no mesmo estado, e no Rio de Janeiro, com uma equipe de 50 pessoas, Eu Receberia as Piores Notícias dos Seus Lindos Lábios foi orçado em 4,3 milhões de reais, embora tenha sido realizado com apenas 3,5. Os diretores optaram pelo uso de steadicam e extensos planos-sequência e por não fazer muitas tomadas da mesma cena, com o intuito de transmitir para a tela as primeiras emoções dos atores, em sua jornada de urgência e descobrimento.

Fernando Henrique Cardoso discute questão das drogas em documentário

Ex-presidente brasileiro entrevista personalidades como Drauzio Varella l Foto: Reprodução

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O diretor Fernando Grostein Andrade e o ex-presidente da República Fernando Henrique Cardoso participarão nesta quarta-feira, dia 9, de uma sessão de autógrafos e um bate-papo em razão do lançamento do DVD do documentário Quebrando o Tabu (assistir o trailer), que discute a questão das drogas no mundo. O evento acontecerá às 19:00, na livraria Saraiva, no shopping Higienópolis, em São Paulo.

Realizado pela Spray Filmes e produzido por Fernando Menocci, Silvana Tinelli e Luciano Huck (irmão do diretor), o documentário conta com depoimentos dos ex-chefes de Estado Bill Clinton e Jimmy Carter, do ator Gael García Bernal, do médico Drauzio Varella e do escritor Paulo Coelho, entre outros, e foi lançado nos cinemas em junho deste ano. Durante dois anos, Cardoso percorreu países como Estados Unidos, Holanda, Suíça, Portugal e México, em busca de opiniões e experiências no combate ao tráfico; é ele quem atua como âncora do longa.

O ex-presidente defende a descriminalização das drogas, além de considerar a guerra contra elas totalmente perdida. “Só quem é burro não muda de opinião diante de fatos novos. Eu não tinha consciência da gravidade e do que significava essa questão naquela época como tenho hoje”, avalia, quando perguntado por que não fez algo a respeito quando ocupava o principal cargo do país.

Para Cardoso, que considera que o usuário deveria ter a possibilidade de encontrar drogas sem recorrer a um traficante, pensar em um mundo livre destas substâncias “é uma coisa utópica, não houve até hoje na história”. O autor do livro 15 To Life,  Anthony Papa, também segue o mesmo raciocínio. “Se não conseguimos acabar com as drogas dentro de uma prisão de segurança máxima, como acabaremos com elas em uma sociedade livre?”, pergunta.

O filme, que dura 74 minutos, tem também depoimentos de Ruth Dreifuss (ex-presidente suíça), Ethan Nadelmann (diretor do Drug Policy Alliance), Gregory Lannes (executivo da indústria de telecomunicações), Moisés Naím (especialista em redes criminais globais) e Gro Brundtland (ex-primeira ministra da Noruega e diretora geral da Organização Mundial da Saúde), além de usuários de drogas. No total, foram entrevistadas 176 pessoas.

Alexandre Frota revela em stand up episódios picantes com famosos

Ex-ator da Globo e da indústria pornô apresenta stand up polêmico l Foto: Reprodução

 

Na última segunda-feira, o ator e diretor Alexandre Frota estreou no Bar Cardozo, em São Paulo, seu espetáculo de stand up A Identidade Frota, no qual repassa vários episódios de sua vida e carreira, envolvendo personagens como Boni, Daniel Filho, Jô Soares, Cláudia Raia, Xuxa, Wolf Maya, Cazuza, Romário e Renato Gaúcho, entre outros.

Em 90 minutos de espetáculo, cuja curtíssima temporada conclui esta noite, com todos os ingressos esgotados, Frota conta sobre como conquistou a atriz Cláudia Raia, então namorada do comediante e entrevistador Jô Soares, de quando um diretor da Globo quis fazer sexo com ele e de suas experiências com drogas ao lado de astros da música como Raul Seixas e Cazuza. “São histórias reais. Não vou inventar nada”, garante.

Outros relatos presentes no ‘cardápio’ sugerido pelo ator são “Garota de programa? Quase casei com uma”, “Quase virei pastor”, “65 dias com a ex do Romário” e “Eu, Renato Gaúcho e as festinhas”. Frota também narra o dia em que viu Xuxa nua, tomando banho, quando a apresentadora ainda era uma modelo em início de carreira, e revela que a loira não ficou nem um pouco inibida com sua presença.

Sempre polêmico, o ator elogia figuras como Boni (ex-homem forte da Globo) e o bispo Edir Macedo (dono da Record e fundador da controvertida Igreja Universal do Reino de Deus), enquanto não poupa críticas a outras, como o boleiro Adriano. “Gente como eu, que se envolve com drogas e álcool, é muito criticada. Se é jogador de futebol, o pessoal chama de ‘imperador’”, ironiza, em clara alusão ao ex-atleta do Flamengo, São Paulo e seleção brasileira.

Uma montanha russa:
De galã de novelas a ator pornô

A vida e a carreira de Alexandre Frota de Andrade (Rio de Janeiro, 14 de outubro de 1965) sempre foram uma montanha russa, como ele próprio define. Descoberto em um concurso de jovens talentos para a indústria de vídeos da área amadora, havia começado sua trajetória artística interpretando um pato em uma peça infantil, e com menos de 20 anos estreou na Globo, onde se tornou galã de novelas.

Casado durante três anos com Cláudia Raia, atuou ao seu lado nas novelas “Roque Santeiro” (1985) e “Sassaricando” (1987), além de ter feito outras produções como a minissérie “Boca do Lixo” (1990), contracenando com a então estreante Sílvia Pfeifer. Seu currículo também contém uma participação na série “Mandrake” (2006), realizada pela HBO no Brasil, e papéis em filmes como O Escorpião Escarlate (1988) e Matou A Família e Foi Ao Cinema (1990).

Apesar do sucesso na Globo, seu temperamento explosivo e envolvimento com drogas prejudicaram sua carreira, que entrou em declínio. “Se eu tivesse uma equipe em volta de mim, uma preparação, talvez eu tivesse me saído melhor. Se você me perguntar se eu me arrependo de não ter segurado a onda, sim. Eu poderia estar casado com a Cláudia Raia, com a minha família, no mesmo patamar que outros atores, claro que me arrependo. Se me avisassem que andar na contramão era tão duro assim, não teria ido”, reflete.

Depois de ter posado nu algumas vezes para a revista G Magazine, dirigida ao público homossexual (ao total foram quatro ensaios), transformou-se em 2004 no primeiro ator famoso do Brasil a assumidamente ingressar no mercado pornô. Conta-se que recebeu R$ 500 mil para protagonizar cinco longas, embora sua filmografia no ramo conste de 19 títulos, como 11 Mulheres e Muito Pó, Invadindo a Retaguarda e 00 Frota: O Homem da Pistola de Ouro.

Entretanto, foi com Garoto de Programa que o ator causou uma de suas maiores polêmicas, ao aceitar contracenar com a travesti Bianca Soares. Frota admite que duvidou em aceitar o papel, mas se decidiu ao perceber que não tinha nenhum outro convite de trabalho.  “Falei para o diretor: ‘Me dá R$ 150 mil e eu faço’. Fiz tipo um garoto de programa. Ele disse que não acreditava que eu ia fazer. Pedi para levar o dinheiro para o motel. Ele chegou lá com a grana. Eu falei: ‘Beleza, faço’. A Bianca ficou mais nervosa do que eu. Tem muito homem que é louco por uma travesti, mas fica dentro do armário. Eu não. Eu fui lá, fiz o filme, ganhei o dinheiro e ainda mostrei como se deve pegar uma travesti”, afirma.

Atualmente longe do pornô, convertido a religião evangélica, diretor de projetos especiais do Sistema Brasileiro de Televisão (SBT) e casado com a dançarina Fabiana Rodrigues, Frota chorou na cerimônia nupcial realizada no último dia 15, revelando uma faceta por muitos desconhecida: emociona-se com facilidade. Isso acontece com programas de TV como o de Luciano Huck ou ao se lembrar do pai, já falecido, ou do enteado Enzo, de quem inclusive troca as fraldas em plena madrugada. “Não escondo nada, choro. Por isso as pessoas ou me amam, ou me odeiam”, conclui.

Com informações da Wikipédia, Folha e Globo

Festival de Cinema de Futebol se inicia na capital paulista com sessão lotada

Primeiro Tempo teve ingressos esgotados e obrigou a uma sessão extra l Foto: Divulgação

 

Começou ontem em São Paulo o Festival Internacional de Cinema de Futebol (Cinefoot), com a exibição do curta amazonense Vivaldão – O Colosso do Norte e do média-metragem paulista Primeiro Tempo. O evento, que já foi realizado no Rio de Janeiro no final de maio, prossegue hoje e será concluido no domingo, com entrada franca.

No documentário Vivaldão – O Colosso do Norte, o jovem realizador Zeudi Souza trata da reconstrução da memória coletiva deste que é o maior ícone desportivo do Amazonas. O estádio Vivaldo Lima foi inaugurado nos anos 70 e demolido em 2010 para a edificação da Arena da Amazônia, que será uma das sedes da Copa do Mundo de 2014, no Brasil.

Por sua vez, em Primeiro Tempo, Rogério Zagallo — diretor do elogiado Juventus – Rumo a Tóquio — mostra a despedida da torcida do Palmeiras do estádio onde viveu momentos históricos. Depois de quase 90 anos, o Palestra Itália, casa dos palmeirenses, vai dar lugar a um novo estádio. A história é contada através de cenas do último jogo no local, intercaladas com depoimentos de torcedores, jogadores, ex-atletas, sócios e funcionários do clube e moradores do entorno.

Na inauguração, realizada na sala do Museu do Futebol — sede de todas as projeções do evento na capital paulista —, os 180 ingressos para Primeiro Tempo se esgotaram rapidamente e obrigaram os organizadores a programar uma sessão extra, levada a cabo logo em seguida. O filme, que será apresentado no Festival de Cinema de Ouro Preto ainda este mês, deve estrear oficialmente no segundo semestre deste ano.

Embora sejam exibidos apenas filmes nacionais na versão paulistana do festival, o Cinefoot contou com a participação de diversas produções estrangeiras, todas elas apresentadas no Rio de Janeiro, de 26 a 31 de maio. Assim, o público carioca pôde ver os longas Football Under Cover (Alemanha), Ojos Rojos (Chile) e Argentina Fútbol Club (Argentina), além dos curtas The Referee (Suécia), The Ball (Reino Unido), Telé (Alemanha), For Export (Uruguai) e Porque Hay Cosas Que Nunca Se Olvidan (Espanha).

Programação

Quinta-feira 02/06 I 19:30
Vivaldão – O Colosso do Norte l curta l AM l classificação: 12 anos
Primeiro Tempo l média-metragem l SP l classificação: 12 anos

Sexta-feira 03/06 I 19:30
Vila das Torres l curta l PR l classificação: 12 anos
Soberano – Seis Vezes São Paulo l longa l SP l classificação: 12 anos

Sábado 04/06 I 11:00
O Primeiro João l curta l RJ l classificação: livre
Gol a Gol l curta l RS l classificação: livre
Ernesto no País do Futebol l SP l curta l classificação: livre

Domingo 05/06 I 15:00
Luiz Apple -  A Vida de um Campeão l curta l SP l classificação: 12 anos
Os Fiéis l curta l SP l classificação: 12 anos
Futebol de Várzea l longa l SP l classificação: 12 anos

Inversão chega às telas com duas tramas paralelas sobre sequestro

Alexandre Barillari, Giselle Itié e Rubens Caribé fazem parte do elenco l Foto: Divulgação

 

Estreou no último fim de semana nos cinemas brasileiros o filme nacional Inversão, de Edu Felistoque, estrelado pelos atores Alexandre Barillari, Edu Silva, Francisco Carvalho, Giselle Itié, Tadeu di Pietro e Marisol Ribeiro. A produção narra duas histórias em paralelo, que giram ao redor de um sequestro.

O longa-metragem, lançado na última sexta-feira, conta a história de um grupo que sequestra um rico empresário, e cujo avião que os levaria ao cativeiro cai na floresta. Assim, uma jovem e inexperiente delegada de polícia vai às ruas para tentar solucionar o caso, enquanto o prisioneiro e seus raptores devem conviver no meio da mata.

Marisol Ribeiro, que interpreta a delegada Juliana, faz a sua primeira aparição no cinema, já que seu primeiro longa, Família Vende Tudo, de Alain Fresnot, só deve estrear em junho. Em Inversão, a atriz dá vida a uma profissional recém-formada e com pouca experiência, situação que é motivo de chacota entre seus dois colegas policiais, que a ajudam na investigação.

Por sua vez, Giselle Itié já atuou em produções internacionais como O Mistério da Estrada de Sintra, rodada em Portugal, e Os Mercenários, filme norte-americano com Sylvester Stallone. Nascida no México mas vivendo no Brasil desde os 4 anos, a atriz interpreta Milla no filme, uma vilã forte e agressiva, que faz parte do grupo de sequestradores.

O filme, que conta também com o trabalho dos atores Rodrigo Brassoloto, Rubens Caribé, Luiz Bezerra, Tadeu Menezes e Wander Wildner, faz ainda uma referência a uma série de ataques sofridos pela capital paulista em abril de 2006, orquestrada pela facção criminosa PCC. O longa-metragem recebeu uma menção honrosa por sua trilha sonora, no Festival de Cinema Brasileiro de Toronto, em 2009.

A trágica história da menina Araceli: um crime bárbaro e impune

O assassinato de Araceli foi tema de dois livros e um documentário l Foto extraída do Orkut

 

Há exatamente 38 anos, a menina Araceli Cabrera Sanches Crespo era assassinada em Vitória, Espírito Santo, em um dos mais brutais crimes da história do Brasil. O corpo, desfigurado e com marcas de tortura e abuso sexual, foi encontrado quase uma semana depois, e a data de sua morte tornou-se Dia Nacional de Combate ao Abuso e Exploração Sexual de Crianças e Adolescentes, através de lei sancionada pelo Congresso Nacional em 2000.

A data foi escolhida pela brutalidade com que o assassinato foi cometido. A menina, que estava próxima a completar nove anos, foi espancada, estuprada e drogada, e teve os mamilos e a vagina dilacerados a dentadas. Seu corpo foi encontrado em um terreno baldio, queimado e desfigurado com ácido, para dificultar sua identificação. Seus algozes pertenciam a famílias tradicionais e muito influentes no estado, razão pela qual tanto a Justiça como a Polícia foram negligentes e, inclusive, corruptas.

Araceli, nascida em 2 de julho de 1964 em Vitória, e morta em 1973, com apenas oito anos e dez meses de vida, era a segunda filha do eletricista Gabriel Crespo e da boliviana Lola Cabrera, na época radicada no Brasil. A garota morava com os pais e com o irmão maior, Carlinhos, em uma casa modesta da cidade de Serra, vizinha da capital capixaba, em uma rua que nesse tempo tinha o nome de São Paulo, mas hoje chama-se Rua Araceli Cabrera Crespo, em homenagem a menina.

O assassinato de Araceli, que nunca foi esclarecido e cujos culpados jamais foram punidos, estremeceu a população de Vitória, gerou indignação nacional e foi tema de várias publicações no jornalismo e na literatura. A mais famosa delas foi o livro “Araceli, Meu Amor”, de José Louzeiro, lançado em 1975. Trinta anos depois, foi a vez dos então estudantes Tatiana Beling e Diego Herzog realizarem o curta-metragem Caso Araceli, A Cobertura da Imprensa, no qual enfocavam o tratamento dado pela mídia ao caso.

Cronologia do crime

No dia 18 de maio de 1973, Araceli saiu mais cedo da escola, a pedido da mãe, que escrevera um bilhete para a professora. A menina se dirigiu então a um edifício levando um envelope, que continha — sem que ela soubesse — drogas para ser entregues a um grupo de rapazes, filhos de famílias ricas e importantes da cidade e que eram conhecidos por seu gosto em realizar orgias regadas a narcóticos, álcool e sexo.

Ao chegar ao lugar indicado por Lola, que era quem provinha de drogas aos jovens, Araceli se deparou com os rapazes, que já se encontravam sob os efeitos da cocaína. Estes a atacaram e a mataram com requintes de crueldade, deslocando seu queixo com socos e lacerando a dentadas seus mamilos, parte da barriga e sua vagina. Segundo uma testemunha, antiga amante de um dos envolvidos, Araceli foi violentada e dopada com uma forte dose de LSD, à qual não resistiu; exames periciais constataram depois que a menina foi também asfixiada.

O corpo da garota foi encontrado nu e desfigurado, seis dias depois do crime, em um terreno baldio. Antes, o cadáver havia sido levado para o bar de Jorge Michelini — a quem supostamente a droga estava dirigida, e cujo sobrinho, Dante, estaria envolvido no crime — e deixado por vários dias no freezer do lugar, localizado em uma movimentada rua da cidade. Tudo isto foi feito sem nenhum cuidado em evitar testemunhas, tamanha a certeza da impunidade dos assassinos e seus cúmplices. Finalmente, um ácido corrosivo foi jogado sobre os restos mortais da menina para dificultar sua identificação.

Apesar de Gabriel Crespo ter reconhecido o corpo da filha por um sinal de nascença, a certeza veio em um dia em que ele levou o cachorrinho de estimação da menina, Radar, ao Instituto Médico Legal (IML). Ao chegar ao local, o animal — que tinha recebido esse nome porque sempre a localizava — se dirigiu imediatamente à geladeira e passou a arranhar a gaveta em que se encontrava o cadáver de sua dona. Este permaneceria ainda dois anos e meio no IML, antes de ser enviado para uma autópsia no Rio de Janeiro e posteriormente sepultado, em 1976.

Os principais suspeitos do crime foram Paulo Constanteen Helal (o Paulinho) e Dante Michelini Júnior (o Dantinho): o primeiro, filho de um latifundiário membro da maçonaria capixaba; e o segundo, herdeiro de um rico exportador de café. De acordo com versões não confirmadas, ambos organizavam festas nas quais se drogavam e violentavam menores em apartamentos mantidos unicamente para esse fim. Lola, que era irmã de traficantes de Santa Cruz de la Sierra — para onde se mudou anos depois, deixando para trás marido e filho — havia utilizado a filha como ‘mula’, talvez sem intuir seu destino.

Embora houvesse testemunhas contra os dois jovens, Paulinho e Dantinho foram absolvidos em um último julgamento, em 1991, e atualmente nada mais pode ser feito, já que o crime prescreveu. Segundo Louzeiro, mais de dez pessoas que poderiam ajudar a desvendar o caso foram mortas, entre elas o sargento José Homero Dias, assassinado com um tiro nas costas, quando estava próximo a finalizar as investigações. Ainda de acordo com o escritor, os acusados tornaram-se “pais de família católicos, senhores acima de qualquer suspeita” e suas famílias continuam “donas do Espírito Santo” até hoje, quase quatro décadas depois do assassinato que chocou o Brasil.

O curta-metragem

Em 2005, dois estudantes do curso de Rádio e TV em Vitória decidiram realizar um documentário sobre o crime como trabalho final de graduação. No curta-metragem Caso Araceli, A Cobertura da Imprensa, Tatiana Beling (diretora) e Diego Herzog (produtor) abordaram o comportamento dos meios de comunicação da época com relação às investigações, através de várias entrevistas e depoimentos, principalmente de jornalistas.

A ideia do curta, que recebeu quatro prêmios, entre eles o de melhor documentário no 1º Festival de Cinema de Colatina, surgiu após Beling ter lido o livro de Louzeiro. No blog da produção do vídeo, ela conta que, além de jornalistas, tentou entrevistar sem sucesso os acusados do brutal assassinato. “Ligamos para um dos suspeitos do crime, Paulo Helal, e como era de se prever, ele desligou o telefone na nossa cara”, lamenta.

A diretora lembra também que o juiz que absolveu os indiciados a chamou para ir à sua casa, sem câmeras, para uma conversa ‘em particular’, uma vez que os estudantes estariam ‘mexendo em um vespeiro’. Ainda assim, Beling garante não ter certeza sobre a identidade dos assassinos, já que vários depoimentos são contraditórios, revelando como o sensacionalismo e a ânsia por vender jornais pautou a conduta de muitos repórteres na época.

Herzog compartilha da opinião de sua companheira de trabalho e considera que a imprensa realizou uma cobertura cheia de falhas, como publicar fotos do corpo de Araceli e notícias sem confirmação de alguma fonte oficial. O produtor acredita que o crime deixou uma lição que deve ser assimilada. “O mais importante é o valor simbólico que esse caso representa, devemos atribuir a ele um caráter pedagógico para que os mesmos erros não voltem a ser cometidos”, reflete.

Em breve entrevista, os dois realizadores contam alguns detalhes do documentário — que foi aprovado com a nota máxima na universidade —, criticam o comportamento da imprensa e comentam sobre as dificuldades de concretizar o curta-metragem, produzido com apenas 700 reais, bancados por eles próprios.

Com informação de Crimes Famosos, Dossiê Pedofilia e Wikipédia.
Documentário de Tatiana Beling e Diego Herzog: Parte 1 l Parte 2 l Parte 3 l Parte 4
Mais informações: Blog da produção l Canal sobre o caso no YouTube 
Orkut: Comunidade de debate l Perfil com fotos e informações
Outros trabalhos de Diego Herzog: Canal no YouTube l Canal no Vimeo

Tatiana Beling l Diretora do curta-metragem
Caso Araceli, A Cobertura da Imprensa
“O que aconteceu não foi feito só por duas pessoas”

ALDEIA CULTURAL (AC). O assassinato de Araceli é um dos crimes mais conhecidos da história do Espírito Santo e até hoje não foi esclarecido. O que levou vocês a realizarem o curta-metragem?
TATIANA BELING (TB). Estávamos no final do curso de Rádio e TV e queríamos fazer um documentário sobre o caso, depois que li o livro “Araceli, Meu Amor”, do José Louzeiro. O nosso orientador sugeriu que mudássemos, fazendo um documentário apenas sobre a cobertura na imprensa no caso.

AC. E depois de todos os depoimentos colhidos, como você avalia a cobertura da mídia na época para o caso?
TB. O que eu avalio é que não mudou nada daquela época pra hoje. Vamos relembrar o caso da Escola Base em São Paulo. Os donos da escola foram acusados injustamente, mas até a justiça provar isso o sensacionalismo falou mais alto e não se falava em outra coisa. E o jornalista gosta muito de acusar e sacrificar um indiciado, fazendo matérias de páginas inteiras, mas quando é para publicar que a pessoa foi inocentada colocam apenas uma nota. O sensacionalismo, o vender jornal, o ganhar dinheiro sempre fala mais alto nessas horas.

AC. Frequentemente se atribui a autoria do crime a Paulo Helal e Dante Michelini, que não concederam entrevista para o curta. Na sua opinião, é possível afirmar que ambos estiveram envolvidos? Você tem alguma versão para o que aconteceu?
TB. Falando apenas por mim, não acho que o Paulo Helal teve alguma responsabilidade no assassinato em si. A partir de várias entrevistas que fiz (não só as que foram para o documentário), eu acho que a função dele no crime foi apenas desaparecer com o corpo. O momento do crime, tudo o que aconteceu, não foi feito por apenas duas pessoas, acho que tem várias envolvidas, mas isso é uma suposição pessoal. Muitas pessoas que não foram citadas no processo, mas foram citadas pelas pessoas que entrevistei, estão envolvidas. Só prefiro não citar nomes, porque não acho correto acusar sem ter certeza, eu infelizmente não era nem nascida naquela época.

AC. Seis anos depois de ter rodado o documentário, quais são as suas lembranças das filmagens? Qual foi a maior dificuldade em realizá-lo e em que medida o curta modificou a sua visão sobre o caso?
TB. Uma das dificuldades que me marcaram foi a recusa de Paulo Helal em falar sobre o caso, ele desligou o telefone na nossa cara quando tocamos no assunto. Outro foi um juiz que absolveu os indiciados, nos chamando para ir na casa dele sem câmeras e sozinhos pra conversar em particular pois estávamos mexendo num vespeiro. Na época soou como ameaça, hoje já não sei. Mas as entrevistas em si foram muito produtivas e bem aproveitadas. Outro grande problema que tivemos foi um que é o mais comum para videomakers no Brasil: dinheiro. Gravamos nosso documentário com apenas 700 reais.

Diego Herzog I Produtor do curta-metragem
Caso Araceli, A Cobertura da Imprensa
“O curta me fez olhar o caso por outra perspectiva”

ALDEIA CULTURAL (AC). O assassinato de Araceli é um dos crimes mais conhecidos da história do Espírito Santo e até hoje não foi esclarecido. O que levou vocês a realizarem o curta-metragem?
DIEGO HERZOG (DH). Na época de escolher o tema do TCC [trabalho de conclusão de curso] a Tat estava lendo o livro “Araceli, Meu Amor”, do José Louzeiro. Como seria muito difícil entrevistar os personagens envolvidos nesse crime (policiais, juízes, advogados, os acusados), alguns inclusive já faleceram, a mãe da Tat sugeriu que fizéssemos um recorte a partir do papel da imprensa na cobertura do caso.

Tatiana Beling e Diego Herzog l Cortesia

AC. E depois de todos os depoimentos colhidos, como você avalia a cobertura da mídia na época para o caso?
DH. Até hoje é muito difícil fazer esse tipo de reportagem que envolve abuso sexual infantil e pedofilia. Jornalistas continuam cometendo erros como entrevistar a vítima fazendo com que ela reviva o trauma, por exemplo, imagine então na época em que o crime aconteceu, quando ainda não existia o Estatuto da Criança e do Adolescente. A partir dos depoimentos dos jornalistas podemos chegar a conclusão de que houve sensacionalismo por parte da imprensa: publicação de notícias sem confirmação de fonte oficial, notícias forjadas, publicação de fotos do corpo da menina. Seria um ótimo momento para a imprensa pegar ganchos em assuntos que estavam ligados ao crime, como tráfico de drogas e o aumento do uso dessas substâncias aqui no Espírito Santo, por exemplo, pedindo a opinião de psicólogos, assistentes sociais, antropólogos, juízes. Em vez disso preferiram seguir por uma linha de jornalismo sensorial e não informativo.

AC. Frequentemente se atribui a autoria do crime a Paulo Helal e Dante Michelini, que não concederam entrevista para o curta. Na sua opinião, é possível afirmar que ambos estiveram envolvidos? Você tem alguma versão para o que aconteceu?
DH. Não posso afirmar se eles estavam envolvidos no crime e nem era essa a intenção quando eu e Tat resolvemos fazer o documentário. Se a Justiça os inocentou o que adianta fazermos especulações quanto a culpabilidade de quem quer que seja? Mesmo se eles se confessassem culpados, o crime já prescreveu. Para mim o mais importante é o valor simbólico que esse caso representa, devemos atribuir a ele um caráter pedagógico para que os mesmos erros não voltem a ser cometidos.

AC. Seis anos depois de ter rodado o documentário, quais são as suas lembranças das filmagens? Qual foi a maior dificuldade em realizá-lo e em que medida o curta modificou a sua visão sobre o caso?
DH. A maioria dos jornalistas topou falar sem receio nenhum. Também tivemos uma boa ajuda da mãe da Tat, que foi durante anos professora do curso de jornalismo da UFES [Universidade Federal do Espírito Santo] e trabalhou com alguns dos jornalistas
entrevistados. Uma das maiores dificuldades foi dinheiro, ou melhor a falta dele. Éramos estudantes, não trabalhávamos, tivemos que contar com o apoio de nossos pais, o famoso ‘paitrocínio’ (risos). Tínhamos vontade de ir ao Rio de Janeiro entrevistar o José Louzeiro, contratar uma equipe maior, mas nosso orçamento não permitia. O curta me fez olhar o caso por uma outra perspectiva, o olhar da imprensa. Achei muito interessante, tive que ler muitos livros sobre jornalismo, e eu fazia Rádio e TV, isso foi muito enriquecedor para mim. Hoje eu trabalho como editor de vt em um telejornal da TV Gazeta, uma emissora afiliada da Globo, e esse conhecimento teórico do mundo jornalístico me ajudou muito quando fui trabalhar nessa área.